A inadimplência de empresas no Brasil bateu recorde: 9,3 milhões de CNPJs estavam com conta em atraso em agosto, segundo a Serasa Experian, com R$ 244,4 bilhões em dívidas. Quase todas são micro e pequenas empresas (8,8 milhões), e o recado pro dono de negócio é direto: o seu cliente PJ, o seu fornecedor e talvez a sua própria empresa estão com o caixa no limite.
O número saiu na quarta-feira (21) e foi publicado pelo O Povo. A alta foi de 14,3% em relação a agosto de 2025. Isso importa mesmo pra quem paga tudo em dia, porque inadimplência é contagiosa: a empresa que não recebe do cliente atrasa o fornecedor, que atrasa o dele.
O que os números da inadimplência de empresas mostram
Alguns dados da Serasa que vale guardar:
Serviços é o setor mais afetado. 56% das empresas negativadas são de serviços, 32% do comércio e 8% da indústria. Se você presta serviço, o seu concorrente (e muitas vezes o seu cliente) está nessa estatística.
A dívida média é pequena. O passivo médio é de R$ 26.355 por CNPJ e o tíquete médio de cada conta atrasada é de R$ 3.583. Nas micro e pequenas, o tíquete médio é de R$ 3.435. Não é rombo de grande empresa. É conta de fornecedor, aluguel, cartão, boleto que foi ficando.
A maior parte da dívida não é com banco. 75,6% das dívidas são com setores não financeiros. Serviços lideram (31,7%), seguidos de bancos e cartões (19,7%). Quem está ficando sem receber, na maioria das vezes, é outra empresa.
O crédito está sendo usado pra sobreviver. A procura por crédito subiu 11,2% em doze meses e a concessão de capital de giro cresceu 113,9%. A economista-chefe da Serasa, Camila Abdelmalack, disse que o crédito “continua caro” e que essa busca parece ligada a financiar o caixa e manter a operação, não a crescer.
Por que a inadimplência de empresas não cai mesmo com juros caindo
A Selic saiu de 15% no começo do ano pra 13,75% ao ano (o último corte foi em 16 de setembro, como mostra o histórico do Banco Central, e a próxima reunião do Copom está marcada pra 3 e 4 de novembro). Mesmo assim, a inadimplência subiu.
O motivo é simples: 13,75% continua sendo juro muito alto. O empréstimo de capital de giro que uma pequena empresa consegue no banco custa bem mais do que a Selic. Quem pega dinheiro caro pra cobrir buraco de caixa só empurra o problema pra frente, com juros em cima.
E o corte de juros demora meses pra chegar na ponta. Não dá pra montar o plano da sua empresa esperando o Copom resolver.
Leia também: Fluxo de caixa: como controlar sem planilha de 40 abas
Como proteger o caixa da sua empresa da inadimplência
Você não controla a economia. Controla quatro coisas.
1. Quanto você vende a prazo. Cada venda faturada pra 30, 60 ou 90 dias é um empréstimo que você faz pro seu cliente, sem juros e sem garantia. Revisa quem tem prazo e por quê. Cliente novo começa à vista ou com entrada. Prazo é benefício de quem já provou que paga.
2. Quanto entra adiantado. Sinal, entrada, mensalidade antecipada, desconto no Pix pra pagamento à vista. Tudo isso reduz o dinheiro que fica na rua. Serviço com agendamento, principalmente, deveria cobrar adiantamento como regra.
3. Quem você deixa ficar devendo. Consultar CNPJ antes de vender a prazo custa pouco. Se o cliente já está negativado com três fornecedores, a chance de você ser o quarto é alta.
4. Quanto tempo você leva pra cobrar. A conta atrasada de 5 dias é recuperável com uma mensagem. A de 90 dias vira negociação com desconto. Cobrança no dia seguinte ao vencimento, por escrito, educada e com o boleto ou chave Pix já anexada.
Quanto a sua empresa aguenta ficar sem receber
Essa é a pergunta que a maioria dos donos não sabe responder. E é a que decide se um cliente grande atrasando vira susto ou vira crise.
A conta começa pelo seu custo fixo mensal: aluguel, folha, sistemas, pró-labore, parcelas. Depois vem o caixa que você tem hoje. Divide um pelo outro e você sabe quantos meses a empresa sobrevive sem receita nova.
Se a resposta for menos de um mês, a prioridade passa a ser montar reserva, antes de pensar em crescer. E vale olhar se o pró-labore está saindo do lucro ou do caixa (tem um post só sobre quanto o dono pode tirar sem quebrar o caixa).
Outro número que ajuda: quanto você precisa faturar por mês pra cobrir tudo. Se você não sabe, comece pelo ponto de equilíbrio. Com ele em mãos, dá pra saber quanto de inadimplência a sua margem aguenta antes de virar prejuízo.
O que fazer se o seu cliente já está atrasando
Primeiro, não espere. A cada mês que passa, a chance de receber cai e o seu poder de negociação também.
Segundo, ofereça um caminho fácil de pagar: parcelamento do saldo, desconto pra quitação à vista, novo vencimento com data fechada. Cliente que quer pagar e não consegue aceita acordo. Cliente que não quer pagar mostra isso rápido, e aí você sabe com quem está lidando.
Terceiro, pare de vender a prazo pra quem está devendo. Parece óbvio, mas muita empresa continua entregando pro cliente atrasado com medo de perder o cliente. Cada entrega nova pra quem não paga aumenta o tamanho do buraco.
Separa uma hora essa semana pra listar tudo que está na rua: quem deve, quanto e há quantos dias. Com 9,3 milhões de empresas em atraso, a chance de ter alguém dessa lista no seu contas a receber é alta. Melhor descobrir agora do que no dia de pagar a folha.
