Renner e TIG: como uma collab transforma desejo em vendas

Modelos da campanha da collab Renner e TIG com peças de renda, cetim e camiseta estampada

Uma collab de moda é a parceria entre duas marcas para lançar uma coleção assinada em conjunto, quase sempre em quantidade limitada e por pouco tempo. Nesta quinta-feira, 22 de outubro, a Renner lançou a sua com a TIG, e o que se viu no primeiro dia ajuda a entender por que esse formato continua sendo um dos mais eficientes do varejo.

Para quem tem um negócio, fora do mundo da moda inclusive, o caso interessa menos pelas roupas e mais pelo mecanismo. Uma collab bem feita junta reputação, escassez e prazo numa mesma oferta, e essa combinação muda o comportamento de quem compra.

O que foi a collab Renner e TIG

A TIG é uma marca paulistana fundada em 2002 com o nome La Tigresse, que passou por um rebranding em 2023 para se aproximar de um público mais jovem. É conhecida pelo animal print, principalmente a oncinha, e por uma produção de ateliê, em menor escala. Segundo o blog da Renner, a coleção tem 36 peças entre roupas, calçados e acessórios, com preços de R$ 139,90 a R$ 499,90, vendidas no site, no aplicativo e em apenas 14 lojas físicas pelo país. Em entrevista à ELLE Brasil, Renata Figueiredo, à frente da TIG, contou que o ponto alto da parceria foi reunir os maiores sucessos da marca numa mesma coleção.

No dia do lançamento, as peças esgotaram rapidamente no site e nas lojas físicas. Houve fila na porta de lojas antes da abertura e relatos de clientes disputando peças umas com as outras, chegando a tirar roupa da mão de outra pessoa. Para uma rede do tamanho da Renner, acostumada a abastecer centenas de lojas, é um tipo de cena que só acontece quando a demanda foi construída antes de o produto chegar à prateleira.

Por que uma collab de moda funciona

A primeira razão é a troca de reputação. A marca menor, com estética própria e preço mais alto, empresta desejo à marca grande. A marca grande, por sua vez, entrega escala, distribuição e preço acessível. A cliente que admirava a TIG mas não comprava passa a ter uma porta de entrada, e a cliente que já comprava na Renner encontra ali algo que não estava acostumada a ver nas araras.

A segunda razão é a escassez real. Edição limitada só funciona quando o limite é verdadeiro e percebido como tal. Trinta e seis peças, quatorze lojas e um estoque que a própria Renner avisou ser restrito criam um prazo implícito para a decisão. O comportamento de compra muda quando a pessoa entende que adiar significa perder, e esse é um dos vieses que pesam em qualquer decisão de compra.

A terceira razão é a conversa que o lançamento gera. Uma collab vira assunto antes, durante e depois da venda. A fila vira vídeo, o vídeo vira comentário, e a sensação de que todo mundo está falando daquilo puxa ainda mais gente. Boa parte da mídia de um lançamento assim é espontânea, produzida pelas próprias clientes.

Riachuelo e Silvia Braz: o caso dos números

Um dos exemplos mais recentes no Brasil é a collab da Riachuelo com a influenciadora Silvia Braz, lançada para o Dia das Mães de 2026, no feriado de Tiradentes. Segundo a Central do Varejo, a coleção vendeu 50 mil peças no primeiro dia e esgotou cerca de 7 mil itens na primeira hora, com o trench coat e o jeans entre os primeiros a acabar.

Nesse caso, quem empresta reputação não é uma marca de ateliê, e sim uma pessoa. Silvia Braz construiu ao longo dos anos uma audiência que confia no gosto dela, e a Riachuelo transformou essa confiança em produto. O desenho é o mesmo da collab com uma marca: quem tem credibilidade e quem tem escala se juntam, e cada um entrega o que o outro não tem.

H&M e Balmain: a collab de moda que virou referência

O caso mais citado do formato é o da H&M com a Balmain, lançado em 5 de novembro de 2015. A rede fazia parcerias com estilistas desde 2004, quando lançou uma coleção de Karl Lagerfeld, e a Balmain foi a vigésima, segundo a Retail Dive. A diferença estava no tamanho do salto: um vestido da grife francesa podia passar de US$ 2.000, enquanto na H&M as peças ficavam, em geral, entre US$ 150 e US$ 600, de acordo com a Fortune.

A demanda foi construída com seis meses de antecedência. O diretor criativo Olivier Rousteing anunciou a parceria em maio, e até novembro a campanha reuniu Kendall Jenner e Gigi Hadid, um desfile em Nova York transmitido ao vivo e um lookbook nas redes. A Retail Dive contou mais de 312 milhões de impressões desde o anúncio e 93 mil menções à hashtag #HMBalmaination, cerca de metade depois da entrada de Kendall Jenner. Quando as peças chegaram às lojas, boa parte do público já sabia o que queria comprar.

Filas, site fora do ar e o risco da escassez

No dia do lançamento, houve quem acampasse na calçada em Nova York desde a noite anterior, e vídeos de lojas no Reino Unido e na Turquia mostravam clientes se empurrando para entrar, conforme a Fox News. Em Lisboa, a coleção esgotou em menos de uma hora e meia, como relembrou o Observador. O site da H&M não suportou o volume de acessos e, mesmo com o limite de uma unidade por produto, uma jaqueta de US$ 399 apareceu no eBay por US$ 2.000. Jörgen Andersson, então diretor de marketing da rede, resumiu: “Há 60 anos que estamos neste negócio e nunca vimos nada como isto”.

O caso também mostra o outro lado do formato. Muitos clientes reclamaram que não conseguiram comprar nada, e a mesma escassez que gerou o desejo deixou parte do público frustrada. É um equilíbrio que qualquer marca precisa considerar antes de anunciar uma edição limitada.

O que a collab ensina para quem não vende moda

O formato não é exclusivo de grandes redes. Qualquer negócio pode se associar a alguém que tem a confiança do público que ele ainda não alcança. Uma confeitaria pode lançar um bolo assinado com um restaurante conhecido da cidade, uma academia pode criar um programa de oito semanas com uma nutricionista que já tem audiência, um escritório de contabilidade pode montar uma série de encontros com um advogado tributarista. São exemplos ilustrativos, mas seguem a mesma lógica: cada parte traz algo que a outra não tem, seja reputação, público, produto ou estrutura de venda.

Algumas condições, no entanto, separam uma collab que vende de uma que passa despercebida. A primeira é que as duas marcas precisam ter públicos próximos o bastante para a parceria fazer sentido, mas diferentes o bastante para que uma leve clientes novos para a outra. A segunda é que a escassez precisa ser real. Anunciar edição limitada e repor o estoque na semana seguinte ensina o cliente a não acreditar no próximo lançamento. A terceira é preparar a operação para o pico, porque site que cai e atendimento que não dá conta transformam desejo em frustração.

Também vale lembrar que o lançamento é só o começo. Boa parte do valor de uma collab está nos clientes novos que ela traz e no que a marca faz com eles depois. Se não houver um caminho para que essa pessoa volte a comprar, a parceria vira um pico de vendas e nada mais. Esse cuidado com o momento certo e com o que vem em seguida aparece também no marketing de oportunidade, que funciona melhor quando há planejamento por trás do improviso.

A escolha do parceiro também diz muito sobre a marca. Assim como acontece com micro-influenciadores, nem sempre o nome mais famoso é o que traz mais resultado. A TIG não é a marca mais conhecida do país, mas tem uma identidade clara e um público fiel, e foi justamente isso que a Renner foi buscar.

A fila na porta das lojas da Renner nesta quinta-feira veio de uma parceria escolhida com cuidado, de uma quantidade realmente limitada e de um desejo que a TIG levou duas décadas para construir. Para qualquer negócio que pensa em uma collab, a pergunta mais útil é qual reputação ainda falta à própria marca e quem já tem essa reputação para dividir.

GAV Digital

Quer colocar isso em prática no seu negócio?

A GAV trabalha com empresas que querem crescer com estratégia — sem enrolação, sem promessa vazia. Se faz sentido, a gente conversa.

Falar com a GAV

YouTube

Vander José

Vídeos pra dono de negócio: o mínimo que você precisa saber, os fundamentos e as notícias traduzidas, sem enrolação.

Assistir no YouTube